segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A Sociedade de Ordens e as Revoluções que determinaram os Alvores da Contemporaneidade


A ordem social vigente durante a idade moderna nos países europeus, advém da estratificação social iniciada na Idade Média em que a sociedade se agrupava em ordens ou estados, os critérios utilizados para essa divisão eram essencialmente religiosos e morais ou tradicionalistas, de sangue e hereditários. A mobilidade social era extremamente difícil apesar de ter acontecido em casos pontuais, a articulação entre as três ordens baseava-se essencialmente no feudalismo, regime económico que estabilizou esta ordem social ao longo de vários séculos.


A sociedade de ordens
A revolução, um conceito que define, alterações bruscas num sistema vigente, quer seja no plano social, politico e económico, que abruptamente ou em pequenas mudanças ao longo do tempo, substitui a ordem atual por uma nova e que normalmente provoca conflitos, os interesses instalados entram em confronto com os novos, que querem impor os seus ideais.


            Na Europa as sociedades da Idade Moderna evoluíram em duas correntes partindo de uma base comum, a sociedade de estados. Na Europa do sul e oriental as ordens privilegiadas (clero e nobreza) mantiveram até ao fim do antigo regime a posição de grupos dominantes na economia através da posse latifundiária das propriedades agrícolas e rendimentos da principal fonte económica da Idade Moderna a agricultura, e o direito aos mais altos cargos políticos e participação na formação dos estados políticos e controlando de certa forma as monarquias e defendendo as suas posições de domínio na sociedade. No norte da Europa, nomeadamente nos Países Baixos e Inglaterra, um grupo social pertencente ao terceiro estado, a burguesia, que através da expansão do comércio ultramarino e evolução na agricultura (principalmente na Inglaterra), criaram condições de riqueza que utilizaram para ascendência social e algum domínio nas instituições politicas e junto dos monarcas, e como detentores de cargos públicos, deste modo obtiveram condições de defesa dos seus interesses políticos e económicos, em resultado destes factos poderá considerar-se estes países com um sistema social mais flexível e premiável a mobilidades sociais, o que atenuou os efeitos convulsivos das revoluções económicas, politicas e sociais registadas neste período da história da Europa.

 
A revolução industrial do século XVIII é um acumular de outras mudanças significativas que ocorreram na civilização europeia da Idade Moderna e que completando-se e interagindo entre si resultaram num salto civilizacional e marcaram o início da época contemporânea, tais como:

-A revolução agrícola principalmente na Inglaterra e nos Países Baixos, que com evoluções técnicas e práticas mais produtivas conseguiram suprimir as carências alimentares da população e criar excedentes económicos.

-A expansão demográfica a nível europeu que originou mão-de-obra suficiente para sustentar a atividade primária e para o desenvolvimento de outras atividades, como o comércio e as indústrias manufatureiras, e não esquecer o papel que o aumento da demografia teve na urbanização registada por toda a Europa.

-O desenvolvimento do comércio interno e regional, e no século XV, o surgimento do comércio ultramarino e colonialista, que criou condições de grandes mercados de procura e consumo e o acesso às matérias-primas á escala global.

 
Outros factos marcaram a revolução industrial, como seja a corrente filosófica das Luzes do século XVIII que muito contribui-o para o avanço da técnica e tecnologia que foi aplicada nos sectores produtivos, com resultados no aumento dos mesmos, como nunca se tinha registado na história europeia. O papel da elite capitalista burguesa que nunca deixou de investir os ganhos resultantes do comércio na agricultura e na indústria dando a estes sectores uma evolução permanente.
 O impacto que a revolução industrial deteve na revolução social e politica na França do século XVIII, foi a de pôr a descoberto as incompatibilidades de um crescimento económico sustentável e que beneficiasse toda a sociedade, e um velho sistema social do antigo regime, baseado na estratificação por estados sociais em que as ordens privilegiadas tentavam monopolizar e acumular esse crescimento, e por outro lado eram um entrave á expansão desse mesmo crescimento, por exemplo para haver uma evolução na agricultura era necessário grandes propriedades latifundiárias em que o capital aplicado fosse o de objetivos de evolução nos ganhos produtivos, ora grande parte destas propriedades estavam nas mãos da nobreza e do clero, a posse destas apenas interessavam para ganhos nas rendas e outras corveias para sustento de um modo de vida luxuriante. Por parte da classe burguesa, isto era um bloqueio às suas iniciativas de investimento e por fim á sua ascensão social. Para o povo em geral, as últimas tentativas da nobreza de defender a sua posição dominante e exercer os direitos sobre os seus feudos e sobre os camponeses provocaram um sentimento geral de revolta, e apoiando a burguesia foram a base da revolução francesa.


 A revolução americana também teve como causa económica a revolução industrial, pois no seguimento desta última, o crescimento económico registado nas colónias inglesas em território americano e beneficiando do acesso a grandes quantidades de matéria-prima existentes neste continente foi significativo, mas o escoamento de produtos e matérias-primas, através do comércio, para a Europa estava delimitado pelas condições impostas pela potência colonizadora, o monopólio do comércio marítimo com as colónias era da exclusividade da marinha inglesa, os custos alfandegários impostos às importações e exportações das colónias americanas e impostos variados sobre a economia, levaram a aspirações de independência e revolta contra a monarquia inglesa, se adicionarmos a este quadro uma cultura de cidadania dos colonos, habituados a representatividade e participação nas instituições politicas no governo das colónias, levou a um sentimento de desigualdade e não representatividade no parlamento inglês, logo os ideais que estiveram na origem da revolução francesa foram adotados como ideais e argumentos independentistas, tais como, liberdade, igualdade, e felicidade, estiveram no corte das relações “feudo-vassálicas” com a Inglaterra.

As revoluções política e social francesa e americana tiveram um impacto social, pois a sociedade nos países onde ocorreram, a estratificação social modificou-se, os critérios para a mesma passou-se a basear-se em económicos e não em valores religiosos ou de hereditariedade, a mobilidade social flexibilizou-se, a riqueza passou a determinar o estatuto social e o acesso aos cargos políticos, a posse de propriedades liberalizou-se, uma elite ascendeu sem concorrência, a burguesia capitalista ocupou o topo da pirâmide social, as sociedades do antigo regime deram origem á sociedade contemporânea.



            Os estados também sofreram alterações, o parlamentarismo e a representatividade dos cidadãos passaram a fazer parte das instituições públicas, as decisões dos governantes tiveram como prioridades, o crescimento económico e social, a criação de infraestruturas para apoio às economias, como estradas, caminho-de-ferro e comunicações, a informação e o transporte passou a ocupar as preocupações dos governos, a administração pública modernizou-se e tornou-se mais eficaz.

Em resumo: as mudanças operadas pelas revoluções na Europa tiveram como resultado a partilha da Europa em países em dois estados de evolução política económica e social. Em países como a Inglaterra, líder na revolução industrial e na França líder na revolução social e politica e tomando a dianteira da modernidade, outros países como os países ibéricos ou da Europa oriental como o caso da Rússia, as sociedades mantiveram-se como no antigo regime, apesar de as monarquias absolutistas esclarecidas tentarem impor nos seus países avanços económicos da Idade Contemporânea com estruturas sociais da Idade Moderna, a guerra na Europa a seguir á revolução francesa não foi mais, do que um confronto entre estes dois sistemas, com que a Europa dos finais do século XVIII, inícios do século XIX, foi confrontada.

 

Bibliografia:
Chaunu, Pierre, A Civilização da Europa das luzes, I, Lisboa, Editorial Estampa, 1995.
 
Chaunu, Pierre, A Civilização da Europa das luzes, II, Lisboa, Editorial Estampa, 1995.

Furet, François, Ensaio sobre A revolução Francesa, Lisboa, A Regra do Jogo, 1978.
 
Mauro, Fréderic, A expansão europeia, Lisboa, Editorial Estampa, 1995.

Pires, Maria Laura Bettencourt, Sociedade e Cultura Norte-Americanas, Lisboa, Universidade Aberta, 1996.

Vovelle, Michel, breve história da Revolução Francesa, Lisboa, Editorial presença, 1994.

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